Como um preconceito inconsciente afeta a nossa capacidade de escutar os outros


De acordo com as pesquisas, os ouvintes costumam ter um preconceito contra vozes femininas mesmo quando elas dizem a mesma coisa que foi falada por um homem.

Já foi comprovado que usar uma gramática ruim, falar como quem acabou de acordar e terminar as frases com um tom de voz um pouco mais agudo (um padrão chamado de uptalk em inglês) prejudica o sucesso de um indivído.

Mas como será que os ouvintes processam as informações quando um homem e uma mulher dizem exatamente a mesma coisa? De acordo com os pesquisadores, a própria voz de alguém já gera um preconceito inconsciente nos ouvidos e, por causa disso, as mulheres são interpretadas de uma forma diferente.

Uma escuta seletiva

Meghan Sumner, professora titular de linguística da Universidade Stanford, entrou nesse paradigma do preconceito inconsciente após fazer anos de pesquisa sobre como os ouvintes extraem as informações que recebem pela voz e como esses conteúdos são armazenados na memória. Quanto mais pesquisas ela fazia, mais descobria que todos nós escutamos as coisas de uma maneira diferente dependendo da nossa origem e do que achamos sobre cada sotaque. Essa decisão não é consciente e decorre de preconceitos sociais que formam estereótipos inconscientes, o que influencia a forma como damos ouvidos às pessoas.

“Muitas vezes, não importa o que alguém disse, mas como essa pessoa falou”, conta Sumner à Fast Company. ”A interpretação social que fazemos da voz de um indivíduo influencia como escutamos e damos ouvidos aos outros”.

Por exemplo: em uma de suas experiências, Sumner descobriu que um “ouvinte padrão dos Estados Unidos” prefere ouvir uma voz com um inglês britânico padrão do sul da Inglaterra do que um sotaque da cidade de Nova York, mesmo se as duas vozes estiverem falando as mesmas palavras. Sendo assim, esse ouvinte se lembrará mais do que o palestrante britânico disse e achará que ele é mais inteligente. Toda essa interpretação é influenciada pelos estereótipos que temos dos britânicos e dos nova-iorquinos.

Mesmo sem ter nenhum relacionamento ou interação com aquele grupo específico, o ouvinte ainda consegue imaginar que sabe o que aquelas pessoas diriam. Por exemplo: suponhamos que você não interaja com mulheres de forma frequente. Mesmo assim, talvez você imagine saber sobre o que integrantes do sexo feminino conversam. Nesse caso, o que a mulher realmente disser não terá nenhuma importância, porque o ouvinte sempre entrará no modo automático e imaginará o que ela está prestes a falar ou o que está tentando dizer.

É bem comum que isso nos impeça de ouvir o que as pessoas realmente estão falando. Em um outro estudo menor , Sumner e o colega Ed King descobriram o seguinte: em inglês, quando um homem fala a palavra “acadêmico”, o ouvinte costuma imaginar que ele está falando sobre o ambiente educacional; no entanto, quando uma mulher fala sobre algo “acadêmico”, é mais provável que os ouvintes imaginem que ela está falando sobre uma cerimônia de premiação (já que a palavra academy é usada para se referir às duas coisas na língua inglesa).

Vozes e contextos

Ao contrário do que muita gente deve pensar, Sumner explica que esse preconceito inconsciente não reflete uma discriminação contra um grupo inteiro, mas acontece por causa da separação que surge quando “diferenciamos duas categorias”. A pesquisadora descobriu que não há nenhum preconceito negativo contra as mulheres. O que acontece é uma desvalorização das mulheres e uma valorização exacerbada dos homens quando há uma comparação entre os dois.

Sumner descobriu que a voz feminina recebe avaliações piores ao ser colocada no mesmo contexto da voz de um homem mesmo se a voz daquela mulher já tiver sido considerada confiável, clara e compreensível. Até nos casos em que uma voz masculina é avaliada como não muito confiável e inteligente ao ser ouvida sozinha, ela recebe notas muito melhores ao ser comparada a uma voz feminina.

Em uma entrevista para o Clayman Institute for Gender Research, um instituto de Stanford que faz pesquisas relacionadas à questão do gênero, Sumner explica ter ficado claro que “a forma como ouvimos uma certa voz pode variar se ela estiver sozinha ou se aparecer junto com outra voz. É tudo relativo”.

Destruindo o preconceito

É óbvio que esse preconceito inconsciente afeta todas as nossas decisões. Porém, se é impossível evitá-lo, o que podemos fazer a respeito do assunto?

Acima de tudo, Sumner incentiva as pessoas a pararem de falar sobre o que as mulheres deviam fazer e começarem a pensar em como cada um de nós pode mudar o jeito como processamos as informações.

A especialista sugere, sempre que possível, anotar tudo o que alguém falou e reler as suas anotações para conferir se você está realmente compreendendo o que foi dito. Mesmo nesse caso, Sumner adverte que existe uma boa chance de que não anotemos o que aquela pessoa falou de verdade, mas sim o que achamos que ela disse.

Isso pode ser extremamente valioso durante o processo de recrutamento. Sumner indica o trabalho que Iris Bohnet está fazendo para eliminar as barreiras sociais que podem criar uma desvantagem profissional para as mulheres. No livro O que funciona: o design da igualdade de gênero, Bohnet – uma economista comportamental da Universidade de Harvard – recomenda a adoção de entrevistas estruturadas de recrutamento nas quais o gestor responsável pela contratação elabore as perguntas que possam influenciar o futuro sucesso do funcionário com antecedência para depois fazer as mesmas perguntas a todos os candidatos na mesma ordem.

Dando um passo além, Sumner sugere registrar a conversa por meio de anotações, uma prática que pode ser muito benéfica. Quando um entrevistador se concentra em escrever o que um candidato está dizendo, ele acaba prestando menos atenção no comportamento ou no perfil demográfico do entrevistado.

Ao atribuir um número às respostas de cada candidato (em vez de escrever o nome deles no documento), é possível deixar o conteúdo praticamente anônimo na hora de analisar o que foi anotado. Outra opção é pedir que os entrevistados respondam às perguntas sobre desempenho à mão após participarem de uma entrevista presencial para a avaliação de critérios como personalidade e adequação à cultura da empresa.

De qualquer maneira, Sumner aconselha sempre fazer a seguinte pergunta a si mesmo: “Eu estou fundamentando a minha decisão em fatos comprovados? Quais?”. A pesquisadora ainda acrescenta que esse comportamento discriminatório – principalmente quando ele está relacionado às características vocais de uma pessoa – é ativado “com muita rapidez e precocidade”, o que significa que os preconceitos inerentes ao processamento do que alguém fala surgem assim que interagimos com aquela pessoa pela primeira vez – ou seja, muito antes do que a maioria de nós imaginava que fosse o caso.

 

Este artigo foi escrito por Vivian Giang da Fast Company e licenciado oficialmente pela rede de editores NewsCred.

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