Coxinhas versus Petralhas. Como lidar?


Protestar é necessário. Mas para protestar é preciso tempo. Quer ver só? Se você e eu quiséssemos fazê-lo nesta manhã, precisaríamos de uma agenda completamente livre de compromissos, afinal, todas as ações da Receita e Polícia Federal foram feitas de surpresa, muito cedo.

Coxinha ou Petralha, por mais dedicado que fosse, poderia adivinhar.

E… começar por onde? Pela porta da Polícia Federal, na zona oeste de São Paulo? Pelos portões do Aeroporto de Congonhas, na zona sul? Pela porta da casa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, outro município, a 22 quilômetros de distância? 

Para encher e transportar o Pixuleco, como faz? Para carregar as bandeiras da CUT e do PT no carro apertado não dá. De ônibus, então, nesse calor e sem ar-condicionado, é um crime de lesa-pátria.

Há, ainda, amigos para arregimentar no WhatsApp, afinal, um combatente sozinho não faz verão.

    O militante é um ser privilegiado no Brasil

O militante é um ser privilegiado no Brasil. Em muitos casos, usa a causa como bico remunerado com hambúrgueres e batatas fritas para lá imperialistas; em outros, recebe salário e tem um cargo para chamar de seu. Outros, ainda, vendem camisetas, bonés, promovem festas e vendem banners em sites e blogs.

O idealismo virou pano de fundo, detalhe. O que vale é o grito.

Feroz, a militância virtual não fica atrás. É organizada, verte sangue pelo mouse e pode trazer problemas reais para a vida daqueles que a enfrentam – esses corajosos (ou seriam loucos?) existem, embora cada vez em menor número. 

Ah, a militância… Está em tudo, nas conversas, nos bares, nos táxis, nos ônibus, nos estúdios de tatuagem, nas passeatas dos ciclistas, das feministas, dos LGBT, dos evangélicos, dos ateus, nas academias, faculdades, festas com amigos e, mais recentemente, nas arquibancadas dos estádios de futebol.

Não basta ter uma opinião, tem que polarizar e, se possível, fazê-la prevalecer. Nem que seja na marra.

A militância pegou no Brasil e isso é inegável.

O FlaFlu dessa manhã adicionou um novo capítulo a essa guerra entre Coxinhas x Petralhas. Não será o último, claro, mas serve para, novamente, ficarmos ansiosos pelo que está por vir nos noticiários da tarde e da noite, uma vez que não pudemos estar lá por estarmos trabalhando ou procurando trabalho. Ou simplesmente porque não temos interesse nesse tipo de conflito.

Bater panelas na janela não resolve os problemas de um país do tamanho do Brasil

Protestar é preciso. Nem por isso você precisa sair detonando colegas no Facebook, destilar seu ódio em comentários sem o menor fundamento ou dar com uma bandeira vermelha ou azul na cabeça do adversário. 

O mundo não está dividido entre Coxinhas e Petralhas. Há vida política e inteligente bem além dessa Faixa de Gaza brasileira.

Bater panelas na janela, apesar de legítimo e democrático, ao meu ver também não resolve os problemas de um país do tamanho do Brasil. Como publiquei aqui no Pulse, e mantenho minha opinião, bater panela ainda é menos efetivo que fiscalizar vereadores, denunciar desvios em órgãos competentes, entrar com representações na Justiça, ajudar uma ONG – ou, se preferir, cuidar dos problemas que brotam no seu próprio quinta – e resolver isso nas urnas.

É inegável que estamos diante de um novo fenômeno social e, como tal, não se pode dimensionar hoje como vão reverberar os protestos no futuro. Entretanto, até para os fenômenos sociais é preciso cautela e ponderação para não embarcar em barca furada. Vide você os protestos de 2013. No que deram mesmo?

Sair destilando seu veneno de graça sem o menor sustento não muda em nada – nada mesmo – o quadro que aí está: as pessoas não irão consumir mais nos shoppings, indústrias não irão exportar nem empresas irão contratar mais.

Da forma como são feitos hoje, os protestos de rua também não aquecerão os gelados corações de deputados de Brasília nem da presidente Dilma Rousseff e seus asseclas. Todos estão surdos.

E, se tudo isso não bastar para você – fiscalizar vereadores, denunciar desvios em órgãos competentes, entrar com representações na Justiça, ajudar uma ONG e resolver essa questão nas urnas –, o meu conselho é: ouça genuinamente ambos os lados dessa história, tire as suas próprias conclusões, e construa uma opinião. Por fim, sente-se e escreva. Escreva muito.

Escrever é uma forma nobre de exorcizar demônios e fazer as suas ideias serem ouvidas, compartilhadas e, por que não, combatidas com mais princípios, inteligência e humor.

E se a tentação de voltar ao velho e empobrecido embate entre Coxinhas x Petralhas, não caia. Opine, argumente e debata em alto nível. Do debate nascerão ações e, agindo, transformaremos esse Brasil tão sombrio que aí está.

por, Marc Tawill – Dialoog Comunicação, via LinkedIn

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