Diretores infiéis e desleais


Quais as características que não podem faltar na pessoa que dirige uma empresa? Perguntaram isso a um colega meu e sua resposta foi: “Lealdade e sinceridade”. Contudo, se fizermos um levantamento do que os líderes empresariais acham de si mesmos e do que os especialistas dizem sobre as qualidades dos bons diretores, essas duas virtudes não estariam nos lugares de destaque.

Permita-me o leitor que, neste ponto, dê um rodeio. Porque, para saber o que significa dirigir, se deve entender primeiro o que é dirigido. Pessoas. Homens e mulheres livres, capazes de se comprometer com uma coisa, precisamente porque são livres.

Porque não querem fazer o que lhes dá na telha, mas, sim, o que consideram que devem fazer. Não como um dever imposto de fora, mas como uma coisa decidida por si mesmos.

Dirigir uma organização é comandar equipes que acordam motivadas por distintas razões, mas que estão dispostas a aceitar um projeto comum, e a comprometer nele sua liberdade. Primeiro, porque lhes interessa. Segundo, porque querem levar para a frente esse projeto comum.

Se você conduz uma dessas equipes a que chamamos de empresas, você tem de ganhar a confiança das pessoas às quais vai dirigir. E, como elas são livres, têm de ganhar sua confiança para que elas estejam dispostas a colaborar — não porque você lhes paga mais ou menos, ou porque as ameaça com demissão, ou impõe seus pontos de vista pelo “comando e controle”. Você necessita ganhar sua lealdade. E a lealdade não se ganha com mentiras, mas, sim, com sinceridade.

Há muitas companhias que são comandadas dessa forma e funcionam bem: os diretores são sinceros e leais, e os funcionários respondem com leal­dade e boa disponibilidade. Porém, percebo que muitas organizações ainda não são administradas desse jeito. Visto que há muitos diretores que não atuam com lealdade e sinceridade, que acreditam que há justificativas para agirem como mentirosos e embusteiros… Julgo que eles já renunciaram ao ideal de ser um bom gestor.

É evidente que dirigir colocando à frente a lealdade e a sinceridade é difícil. Porque temos “agendas ocultas” em nossa função de diretor. Ficar bem, passar de uma posição para outra mais vantajosa ou mais bem remunerada, não ter de pedir perdão.

No fundo, é porque não acreditamos no objetivo comum que propomos a nossos funcionários — ou, ainda, é porque antepomos nosso objetivo pessoal­ ao objetivo corporativo. E, evidentemente, não somos leais a nosso time, nem somos sinceros. E assim estamos na realidade: ganhando bons salários, fazendo grandes carreiras perante a opinião pública, mas não sendo bons diretores.

por, Antonio Argandoña –  VOCÊ RH

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Um comentário sobre “Diretores infiéis e desleais

  1. Um dos grandes problemas em ser um bom diretor, no caso referente ao texto, é colocar o mercado em detrimento a relação com os profissionais da empresa. É mister que o mercado rege o funcionamento de uma empresa, no dito de Peter Drucker, (pensar de fora para dentro), mas a necessidade de resultados, o que é fundamental, faz com que as relações fiquem num nível de tensão.
    Claro que não deve ser o mote para que se estabeleça relações profissionais cuja valorização seja a pessoa que ali está, mas que se tenha um equilíbrio entre demanda, produtividade e resultados. Uma matemática difícil mas não impossível entre objetividade pragmática e subjetividade relacional.
    Muitas empresas não percebem isso na prática. A própria função de líder muitas vezes não é bem vista no alto escalão: ou por desconhecimento real de sua função ou despreparo do próprio líder. As pessoas são os pilares de uma organização e não devem ser preteridas às demandas do mercado. Em situações de crise por exemplo, são elas que encontram o caminho. Boas relações numa empresa favorece a criatividade aliada ao conhecimento, adicionada à vivência. Isso se chama sustentabilidade.

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