O risco de superestimar empresas e CEOs de sucesso


Uma grande empresa começa a figurar na editoria de economia dos jornais e em revistas especializadas, todos os veículos focados em retratar o crescimento rápido e as projeções otimistas para a companhia nos próximos anos. Além disso, as páginas não se dedicam somente a falar sobre a corporação em si, mas também fazem questão de exaltar o CEO, com depoimentos sobre sua trajetória até o cargo e as características que definem a sua liderança.

A situação descrita acima é a receita perfeita para encantar as pessoas e fazer com que elas encarem a empresa e o CEO como exemplos de sucesso. Se o gestor em questão lança um livro sobre sua vida profissional, é bem provável que o título fique entre os mais vendidos.

imagesHistórias de sucesso naturalmente nos cativam, seja no âmbito corporativo ou qualquer outro contexto. Admiramos a história daquela pessoa que começou do zero, enfrentou diversas dificuldades e conseguiu alcançar o sucesso. Isso nos remete à ideia de que o esforço e a dedicação sempre vão valer a pena e que os resultados chegam em algum momento.

A intenção aqui não é ser pessimista e dizer que nada disso faz sentido. Mas é preciso olhar para esta nossa tendência de confiar em casos de sucesso de um modo um pouco mais crítico.

No livro “Rápido e Devagar: Duas formas de pensar”, o especialista em psicologia econômica Daniel Kahneman menciona um estudo que apontou uma estimativa da correlação entre o sucesso das empresas e a qualidade de seus CEOs.

Se nos deixarmos levar pelo senso comum, o mais provável é que acreditemos que o CEO mais forte estará sempre à frente da empresa mais bem-sucedida. O estudo, no entanto, mostra que os CEOs fortes estão à frente de companhias de sucesso em somente cerca de 60% das vezes.

Para nosso padrão associativo, não faz sentido pensar em um CEO extremamente competente conduzindo uma empresa em declínio. Do mesmo modo que parece estranho pensar em um gestor que frequentemente faz péssimas escolhas à frente de uma empresa em crescimento. A verdade é que essas possibilidades nos parecem absurdas porque tendemos a acreditar no “mundo perfeito”. Nosso ímpeto é buscar por padrões que façam sentido. Um bom gestor à frente de uma boa empresa é algo que aceitamos facilmente, ao contrário da ideia de um executivo mal preparado conduzindo uma corporação forte e bem consolidada no mercado.

Limitar nossa compreensão de mundo a padrões que tendem à perfeição é ignorar a quantidade de fatores ligados à aleatoriedade que podem interferir no sucesso ou fracasso de uma companhia. Como consequência, podemos facilmente incorrer em erros graves ou tomarmos decisões ingênuas.

imagesUma empresa que hoje figure como um fracasso no mercado e condenada pela imprensa, em 20 anos pode ter ações muito mais valiosas do que a corporação que agora aparece como líder. Bem como é difícil confiar na solidez de um gestor somente pelo desempenho positivo da companhia que ele conduz. Decisões péssimas podem ser convertidas em resultados positivos por obra da sorte, isso não significa que devemos nos espelhar nas atitudes daquele gestor.

O mundo é mais complexo do que os nossos olhos enxergam em um primeiro momento. Guarde isso para suas decisões financeiras e pense a respeito desta reflexão antes de fazer qualquer tipo de julgamento.

por Samy Dana – G1 – Texto escrito em parceria com a jornalista Karina Alves.

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